Os Enforcados | Fernando Coimbra apresenta sua nova obra macabra
Depois de assistir ‘O Lobo Atrás da Porta’ (2013), filme de Fernando Coimbra reconhecido por sua genialidade em suspense, eu pensava que o diretor não poderia se superar. Porém, eu estava em completo engano. Apostando todas suas fichas e sem medo de errar, ‘Os Enforcados’ nos mostra em um thriller sedutor em como o ser humano desperta seu lado cruel pela gana de poder e faz tudo por sobrevivência.
No longa-metragem, Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal) formam um casal vivendo confortavelmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro, graças ao império do jogo do bicho construído pelo pai e pelo tio dele. Valério, que acredita ter mantido suas mãos limpas, precisa lidar com as pendências de sua família, em um meio que obedece a leis próprias. Incentivado pela ambiciosa mulher, ele tenta uma jogada que ambos consideram infalível.
O cenário que faz a diferença na obra

É comum encontrarmos algumas características quando pensamos no carnaval do Rio de Janeiro: alegria, festa e na parte submersa do iceberg, o jogo do bicho. O pessoal que construiu e gerencia o império de jogos de azar estão ligados diretamente com o evento, e como a própria sinopse diz, é um grupo que molda as próprias leis para manter os negócios poderosos.
Sem intenção de grandes denúncias, o filme utiliza o cenário da cidade carioca como pano de fundo para uma disputa familiar, adaptando a narrativa de Macbeth e Hamlet. Assim, descobrimos com o filme uma luta por ganância por soberania e como o poder desumaniza por completo o homem.
O humor macabro de Fernando Coimbra se concretiza em Os Enforcados
No início, a atmosfera do filme tem um ar bagunçado, tal qual a obra inacabada da casa da família. A promessa do início é cômica, leve e até abraça o público no reconhecimento do jeitinho brasileiro. Mas, aos poucos, a história afunila e, junto, o longa pesa o ar com o tom macabro de Coimbra.
É interessante acompanhar a virada de chave quase oculta do filme, de acordo com a conquista de poder de um império que vai além das apostas. Assim como fora da ficção, quanto mais conquista de posse e autoridade, maior a crueldade do homem é escancarada.
E Coimbra sabe guiar isso como ninguém. Sem medo de criar uma obra visceral, o diretor dá vida a narrativa contada em espiral que deixa o público tenso. Por mais que no primeiro ato o ar seja mais leve, você fica atento para qualquer movimento em falso e, mesmo assim, é surpreendido com o desfecho da trama.
Outro ponto é que quanto mais você nota os detalhes, mais rica a obra fica. Coimbra tem essa característica de se importar com um todo, não deixando nada escapar – desde a fotografia milimetricamente alinhada até a sonoplastia que incomoda o juízo de qualquer um, como qualquer som de obra durante o dia.
O diretor também destaca o filme, em comparação a outros suspenses, quando não tem pena de mostrar o lado macabro da moeda. Ele dobra a aposta do próprio filme e decide chocar o espectador a qualquer custo. E, bom, ao meu ver, ele levou a melhor.
Leia também: Homem com H: uma carta de amor para Ney Matogrosso
O casal que traz potência para premissa

Os personagens têm construções opostas, o que encorpora ainda mais a trama. O Iradhir Santos traz um Valerio que acredita ser multifacetado, em que começa como um homem mais submisso e “cidadão do bem”, porém, ao longo da conquista de poder, externiza seu lado sombrio – coisa que só existia em fantasias.
Já a atriz Leandra Leal nos mostra, mais uma vez, o que é roubar a cena. Regina é uma peça importante no jogo; ambiciosa, a personagem está disposta a tudo para conquistar o que quer por ela e pelo marido. Porém, no instante em que se sente desconfiada, Regina guia o público para um lado alternativo da trama. Assim, o imprevisível começa a ganhar força.
O jogo de cena entre os dois é tão natural que chega a ser assustador. É fácil acreditar que aquele universo existe, não só pelo trabalho de direção, mas também pela performance deslumbrante dos dois. Um completa o outro, e quando há estranheza, torna-se ainda mais palpável o suspense que é construído por um afastamento.
Não posso deixar de comentar também que é muito interessante ver Leal e Coimbra trabalhando juntos novamente. O cineasta sabe como encontrar o melhor da atuação da atriz, deixando-a liberta em frente as câmeras. Assim como O Lobo Atrás da Porta, Leal mostra como impactar o espectador com sua performance magnífica.
Vale a pena assistir Os Enforcados?
Coimbra, novamente, acertou em cheio. Com uma trama extremamente envolvente e um elenco acima da média, Os Enforcados potencializa ainda mais o cátologo do cinema brasileira. Ver esse filme na tela do cinema é gratificante, não só pela qualidade da obra, mas também em assistir um longa de uma pessoa que é apaixonada pelo o que faz.
Os Enforcados estreia em 14 de agosto nos cinemas. Confira o trailer do filme:




