O Último Azul | Gabriel Mascaro nos ensina a voar com seu novo filme

Em algum momento da sua vida, você teve que encarar a dúvida sobre o que é liberdade? É com essa provocação que o diretor Gabriel Mascaro (Divino Amor), conhecido por seu apreço a criar distopias, nos apresenta O Último Azul. O filme, consagrado com o Urso de Prata no Festival de Berlim 2025,  entrega uma premissa simplória e é transformada em pura poesia, misturando a beleza de viver com a da natureza única da floresta amazônica.

O longa acompanha Tereza (Denise Weinberg), uma mulher que tem 77 anos e mora numa cidade industrializada na Amazônia. Ela é convocada oficialmente pelo governo a se mudar para uma colônia habitacional compulsória. Lá, os idosos “desfrutam” de seus últimos anos de vida, enquanto a juventude produtiva do país trabalha sem se preocupar com os mais velhos. Antes do exílio forçado, Tereza embarca numa jornada pelos rios e afluentes da região para realizar um último desejo, algo que pode mudar seu rumo para sempre. 

A distopia que conversa com o real

Chega a ser cômico quando as ações do governo autoritário são apresentadas na obra, principalmente quando o “cata-velho” aparece pela primeira vez e Tereza demonstra ter um pavor de ter que andar naquilo. Mas, ao mesmo tempo, conversa facilmente com a nossa realidade. 

O etarismo é um fato, mas ao mesmo tempo é uma pauta que se perde em um mar de tantas outras. É uma discriminação quase que velada que se concretiza através de invalidação, estereótipos e, como principal fator, exclusão social. 

Então, ver esse filme em um mundo em que somos incentivados a todo momento, principalmente nas redes sociais, a nos mantermos jovens, porque na terceira idade o tempo já vai ter passado, é quase uma facada no coração. 

Mas a invalidez dos idosos é apenas o gancho para revelar a trama sensível que Mascaro guardou em uma caixinha de surpresa. A intenção do diretor não é pesar o clima com um roteiro denso; na verdade, é muito pelo contrário. Aqui, ele cede o holofote para o sonho de Tereza de querer voar – em dois sentidos – e, assim, faz com que ela descubra a necessidade de ter a aventura da sua vida: a busca da liberdade. 

Os capítulos da vida de Tereza de O Último Azul

O filme é dividido estrategicamente em pequenos capítulos essenciais para a aventura da nossa protagonista. É como se Mascaro utilizasse a metáfora da borboleta para nos mostrar o que é liberdade. E, ao meu ver, é uma das decisões mais bonitas da narrativa. 

Após o baque de saber que vai ser enviada para Colônia, ela encontra o personagem de Rodrigo Santoro (Cadu) e, em seguida, de Adanilo (Ludemir). Ambos os jovens não demonstram ter pressa para resolver o problema de Tereza, porque acham que têm todo tempo do mundo. Porém, a protagonista corre contra o relógio para poder voar. 

Tereza só redescobre a paz quando conhece Roberta (Miriam Socorras), uma viajante que tem a idade próxima a dela, mas que conquistou sua liberdade. Essa construção de laço é essencial para a protagonista, porque assim ela entende o que é liberdade. Poder tomar suas próprias decisões sobre sua vida é o maior ato de independência que ela pode ter. 

A imagem que ganha vida em O Último Azul

A fotografia e a direção de arte são um show à parte em O Último Azul. Todo frame parece que é um quadro pintado que salta em vida na tela do cinema. Guillermo Garza (Segredos Ocultos) nos traz planos bem abertos que nos mostram a imensidão do mundo, contrastando com a ironia do roteiro de querer limitar alguém em vida. 

Além do mais, o rio é tão bem aproveitado dentro da narrativa que nos faz acreditar que também é um personagem. Um amigo de longa data da Tereza que guarda seus segredos e é ponte para que ela consiga conquistar seu sonho de voar alto. 

Já os planos mais fechados, são bem elaborados para invadir o implícito de Denise Weinberg (De Pernas pro Ar) que está espetacular como ponto foco da história. A atriz nos traz camadas da personagem que vão desabrochando ao longo das descobertas da personagem. 

O Último Azul é um filme que te ensina a voar tal qual Tereza. Se a nossa dúvida era saber o que era liberdade, o novo longa de Mascaro nos mostra lindamente que ser livre é poder viver em paz. 

O Último Azul estreia em 28 de agosto nos cinemas. Confira agora o trailer:

Nota: 4 de 5 sabões

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